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Cristão
não para se vangloriar mas para tornar visível Deus no mundo
Ser
Cristão não nos dá <> mas para
<>, afirmou Bento XVI na homilia da missa crismal presidida na manhã
de Quinta-feira Santa, 21 de abril, na basílica Vaticana.
Amados irmãos e irmãs!
No centro da liturgia
desta manhã, está a bênção dos santos óleos: o óleo para a unção dos
catecúmenos, o óleo para a unção dos enfermos e o óleo do crisma para os
grandes sacramentos que conferem o Espírito Santo, ou seja, a Confirmação, a
Ordenação Sacerdotal e a Ordenação Episcopal. Nos sacramentos, o Senhor
toca-nos por meio dos elementos da criação. Aqui, torna-se visível a unidade
entre criação e redenção. Os sacramentos são expressão da corporeidade da nossa
fé, que abraça corpo e alma, isto é, o homem inteiro. Pão e vinho são frutos da
terra e do trabalho humano. O Senhor escolheu-os como portadores da sua
presença. O óleo é símbolo do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, alude a Cristo:
a palavra «Cristo» (Messias) significa «Ungido». A humanidade de Jesus, graças
à unidade do Filho com o Pai, fica inserida na comunhão com o Espírito Santo e
assim é «ungida» de um modo único, é permeada pelo Espírito Santo. Aquilo que
acontecera apenas simbolicamente nos reis e sacerdotes da Antiga Aliança,
quando eram instituídos no seu ministério com a unção do óleo, verifica-se em
toda a sua realidade em Jesus: a sua humanidade é permeada pela força do
Espírito Santo. Jesus abre a nossa humanidade ao dom do Espírito Santo. Quanto
mais estivermos unidos a Cristo, tanto mais ficamos cheios do seu Espírito, do
Espírito Santo. Chamamo-nos «cristãos», ou seja, «ungidos»: pessoas que
pertencem a Cristo e por isso participam na sua unção, são tocadas pelo seu
Espírito. Não quero somente chamar-me cristão, mas sê-lo também: disse Santo
Inácio de Antioquia. Deixemos que estes santos óleos, que vão ser consagrados
daqui a pouco, lembrem este dever contido na palavra «cristão», e peçamos ao
Senhor que não nos limitemos a chamar-nos cristãos, mas o sejamos cada vez
mais.
Como já disse, na
liturgia deste dia, são benzidos três óleos. Nesta tríade, exprimem-se três
dimensões essenciais da vida cristã, sobre as quais queremos agora reflectir.
Em primeiro lugar, temos o óleo dos catecúmenos. Este óleo indica como que um
primeiro modo de ser tocados por Cristo e pelo seu Espírito: um toque interior,
pelo qual o Senhor atrai e aproxima de Si as pessoas. Por meio desta primeira
unção, que tem lugar ainda antes do Baptismo, o nosso olhar detém-se nas
pessoas que se põem a caminho de Cristo, nas pessoas que andam à procura da fé,
à procura de Deus. O óleo dos catecúmenos diz-nos: não só os homens procuram a
Deus, mas o próprio Deus anda à nossa procura. O facto de Ele mesmo Se ter
feito homem descendo até aos abismos da existência humana, até à noite da
morte, mostra-nos quanto Deus ama o homem, sua criatura. Movido pelo amor, Deus
caminhou ao nosso encontro. «A buscar-me Vos cansaste, pela Cruz me
resgatastes: tanta dor não seja em vão!»: rezamos no Dies irae. Deus anda à
minha procura. Tenho eu vontade de O reconhecer? Quero ser conhecido por Ele,
ser encontrado por Ele? Deus ama os homens. Ele sai ao encontro da inquietude
do nosso coração, da inquietude que nos faz questionar e procurar, com a
inquietude do seu próprio coração, que O induz a realizar o acto extremo por
nós. A inquietude por Deus, o caminhar para Ele, para melhor O conhecer e amar
não deve apagar-se em nós. Neste sentido, nunca devemos deixar de ser
catecúmenos. «Procurai sempre a sua face»: diz um Salmo (105/104, 4). A este
respeito, comentava Agostinho: Deus é tão grande que sempre supera
infinitamente todo o nosso conhecimento e todo o nosso ser. O conhecimento de
Deus nunca se esgota. Por toda a eternidade, poderemos, com uma alegria
crescente, continuar a procurá-Lo, para O conhecer e amar cada vez mais. «O
nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós»: escreveu Agostinho
no início das suas Confissões. Sim, o homem vive inquieto, porque tudo o que é
temporal é demasiado pouco. Mas, verdadeiramente, sentimo-nos inquietos por
Ele? Não acabamos, talvez, por nos resignar com a sua ausência, procurando
bastar-nos a nós mesmos? Não consintamos uma tal redução do nosso ser humano!
Continuemos incessantemente a caminhar para Ele, com saudades d’Ele, num
acolhimento sempre novo feito de conhecimento e amor!
Temos, depois, o óleo
para a Unção dos Enfermos. Pensamos agora na multidão das pessoas que sofrem:
os famintos e os sedentos, as vítimas da violência em todos os continentes, os
doentes com todos os seus sofrimentos, as suas esperanças e desânimos, os
perseguidos e os humilhados, as pessoas com o coração dilacerado. Ao narrar o
primeiro envio dos discípulos por Jesus, São Lucas diz-nos: «Ele enviou-os a
proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos» (9, 2). Curar é um mandato
primordial confiado por Jesus à Igreja, a exemplo d’Ele mesmo que, curando,
percorreu os caminhos do país. É certo que o dever primordial da Igreja é o
anúncio do Reino de Deus. Mas este mesmo anúncio deve revelar-se um processo de
cura: «...tratar os corações torturados», diz hoje a primeira leitura do
profeta Isaías (61, 1). O primeiro fruto que o anúncio do Reino de Deus, da
bondade sem limites de Deus, deve suscitar é curar o coração ferido dos homens.
O homem é essencialmente um ser em relação. Mas, se a sua relação fundamental -
a relação com Deus – é transtornada, então tudo o resto fica transtornado
também. Se o nosso relacionamento com Deus se transtorna, se a orientação
fundamental do nosso ser está errada, também não podemos ficar verdadeiramente
curados no corpo e na alma. Por isso, a primeira e fundamental cura tem lugar
no encontro com Cristo, que nos reconcilia com Deus e sara o nosso coração
despedaçado. Mas, além deste dever central, faz parte da missão essencial da
Igreja também a cura concreta da doença e do sofrimento. O óleo para a Unção
dos Enfermos é expressão sacramental visível desta missão. Desde o início,
amadureceu na Igreja a vocação de curar, amadureceu o amor solícito pelas
pessoas atribuladas no corpo e na alma. Esta é também a ocasião boa para, uma
vez por outra, agradecer às irmãs e aos irmãos que, em todo o mundo,
proporcionam um amor restaurador aos homens, sem olhar à sua posição ou
confissão religiosa. Desde Isabel da Hungria, Vicente de Paulo, Luísa de
Marillac, Camilo de Lellis, até Madre Teresa – para lembrar somente alguns
nomes – o mundo é atravessado por um rastro luminoso de pessoas, que tem a sua
origem no amor de Jesus pelos atribulados e doentes. Por tudo isso damos graças
ao Senhor neste momento. E agradecemos a todos aqueles que, em virtude da fé e
do amor, se põem ao lado dos doentes, dando assim, no fim das contas,
testemunho da bondade própria de Deus. O óleo para a Unção dos Enfermos é sinal
deste óleo da bondade do coração, que estas pessoas – juntamente com a sua
competência profissional – proporcionam aos doentes. Sem falar de Cristo,
manifestam-n’O.
Em terceiro lugar,
temos o mais nobre dos óleos eclesiais: o crisma, uma mistura de azeite de
oliveira e com perfumes vegetais. É o óleo da unção sacerdotal e da unção real,
unções estas que estão ligadas com as grandes tradições de unção da Antiga
Aliança. Na Igreja, este óleo serve sobretudo para a unção na Confirmação e nas
Ordens sacras. A liturgia de hoje relaciona com este óleo as palavras de
promessa do profeta Isaías: «Vós sereis chamados “sacerdotes do Senhor”e tereis
o nome de “ministros do nosso Deus”» (61, 6). Deste modo, o profeta retoma a grande
palavra de mandato e promessa que Deus dirigira a Israel no Sinai: «Vós sereis
para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19, 6). No meio do mundo
imenso e em favor do mesmo, que em grande parte não conhecia Deus, Israel devia
ser como que um santuário de Deus para a todos, devia exercer uma função
sacerdotal em favor do mundo. Devia conduzir o mundo para Deus, abri-lo a Ele.
São Pedro, na sua grande catequese baptismal, aplicou tal privilégio e mandato
de Israel a toda a comunidade dos baptizados, proclamando: «Vós, porém, sois
raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para
anunciardes os louvores d’Aquele que vos chamou das trevas à sua luz admirável.
Vós que outrora não éreis seu povo, agora sois povo de Deus» (1 Ped 2, 9-10). O
Baptismo e a Confirmação constituem o ingresso neste povo de Deus, que abraça
todo o mundo; a unção no Baptismo e na Confirmação introduz neste ministério
sacerdotal em favor da humanidade. Os cristãos são um povo sacerdotal em favor
do mundo. Os cristãos deveriam fazer visível ao mundo o Deus vivo,
testemunhá-Lo e conduzir a Ele. Ao falarmos desta nossa missão comum enquanto
baptizados, não temos motivo para nos vangloriar. De facto, trata-se de uma
exigência que suscita em nós alegria e ao mesmo tempo preocupação: somos nós
verdadeiramente o santuário de Deus no mundo e para o mundo? Abrimos aos homens
o acesso a Deus ou, pelo contrário, escondemo-lo? Porventura nós, povo de Deus,
não nos tornamos em grande parte um povo marcado pela incredulidade e pelo
afastamento de Deus? Porventura não é verdade que o Ocidente, os países
centrais do cristianismo se mostram cansados da sua fé e, enfastiados da sua
própria história e cultura, já não querem conhecer a fé em Jesus Cristo? Neste
momento, temos motivos para bradar a Deus: «Não permitais que nos tornemos um
“não povo”! Fazei que Vos reconheçamos de novo! De facto, ungistes-nos com o
vosso amor, colocastes o vosso Espírito Santo sobre nós. Fazei que a força do
vosso Espírito se torne novamente eficaz em nós, para darmos com alegria
testemunho da vossa mensagem!».
Mas, apesar de toda a
vergonha pelos nossos erros, não devemos esquecer que hoje existem também
exemplos luminosos de fé; pessoas que, pela sua fé e o seu amor, dão esperança
ao mundo. Quando for beatificado o Papa João Paulo II no próximo dia 1 de Maio,
cheios de gratidão pensaremos nele como grande testemunha de Deus e de Jesus
Cristo no nosso tempo, como homem cheio do Espírito Santo. E juntamente com
João Paulo II, pensamos no grande número daqueles que ele beatificou e
canonizou, e que nos dão a certeza de que também hoje a promessa de Deus e o
seu mandato não ficam sem efeito.
Finalmente, dirijo uma
palavra especial a vós, caros irmãos no ministério sacerdotal. A Quinta-feira
Santa é de modo particular o nosso dia. Na hora da Última Ceia, o Senhor
instituiu o sacerdócio neotestamentário. «Consagra-os na verdade» (Jo 17, 17):
pediu Ele ao Pai para os Apóstolos e
para os sacerdotes de todos os tempos. Com imensa gratidão pela nossa vocação e
com grande humildade por todas as nossas insuficiências, renovemos neste
momento o nosso «sim» ao chamamento do Senhor: Sim, quero unir-me intimamente
ao Senhor Jesus, renunciando a mim mesmo .... impelido pelo amor de Cristo.
Amém.
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